Pergunta a qualquer treinador de formação qual é a conversa mais difícil da época e a resposta costuma ser a mesma: "porque é que o meu filho jogou tão pouco?". O tempo de jogo mexe com a motivação dos atletas, com a confiança dos pais e com o ambiente do balneário. E, quase sempre, o problema não é a decisão em si: é não haver um critério claro nem um registo que a sustente.
1. Define o objetivo de cada escalão
Antes de distribuir minutos, decide o que pretendes com aquele escalão. Nos mais novos (petizes, traquinas, benjamins), o objetivo é quase sempre o desenvolvimento e o prazer de jogar, e faz sentido que todos joguem tempos semelhantes. Nos escalões mais velhos (juvenis, juniores), a competição ganha peso e é natural que o tempo de jogo dependa mais do rendimento.
Não há uma resposta certa para todos os clubes, mas tem de haver uma resposta, conhecida por todos.
2. Escreve os critérios e partilha-os no início da época
Os critérios mais usados na formação são:
- Assiduidade e pontualidade nos treinos
- Atitude e comportamento (no treino, no jogo e no balneário)
- Rotação: garantir que ninguém fica sistematicamente de fora
- Rendimento, com mais peso nos escalões competitivos
Apresenta-os aos atletas e aos pais na primeira reunião da época. Quando surgir a pergunta difícil, a conversa passa a ser sobre factos ("faltou a metade dos treinos este mês") e não sobre preferências.
3. Regista os minutos de cada jogo
A memória engana. Ao fim de oito jornadas é muito fácil achar que a rotação está equilibrada quando, na verdade, dois ou três atletas acumulam metade dos minutos dos restantes. Registar, para cada jogo:
- Quem foi titular e quem entrou do banco
- Minutos jogados por atleta
- Quem foi convocado e não jogou, e porquê (opção, lesão, castigo)
Com este histórico consegues ver, em qualquer momento da época, quem está a jogar menos do que devia, e corrigir antes de o problema chegar aos pais.
4. Separa jogos oficiais de jogos de treino
Os jogos de treino e torneios particulares são ótimas oportunidades para dar minutos a quem joga menos no campeonato. Mas convém registá-los à parte: misturar tudo numa só conta dá uma imagem enganadora do tempo de jogo "a sério" de cada atleta.
5. Planeia as substituições antes do jogo
Nos escalões de formação, decidir substituições no calor do jogo leva quase sempre a que os mesmos fiquem mais tempo no banco. Uma regra simples: antes do jogo, define em que momentos vais fazer alterações (por exemplo, ao intervalo e a meio da segunda parte) e quem entra em cada momento. Ajusta se for preciso, mas parte de um plano.
6. Fala com os atletas antes de falares com os pais
Um atleta que percebe porque está a jogar menos, e o que pode fazer para mudar isso, lida muito melhor com a situação. Conversas curtas e individuais, com objetivos concretos ("quero ver-te mais agressivo a recuperar a bola nos treinos desta semana"), evitam que a frustração chegue a casa sem contexto.